Mulher segurando uma receita médica, expressão serena e confiante, representando a decisão informada sobre a terapia de reposição hormonal

Ela entrou no consultório já com a resposta pronta antes de eu perguntar qualquer coisa. “Não quero nem saber de hormônio, doutor. Isso dá câncer.” Tinha três anos de fogachos que a acordavam de madrugada. Preferia sofrer calada a correr esse risco.

Esse medo tem data de nascimento.

Por que a TRH assusta mais do que deveria

No início dos anos 2000, um grande estudo americano foi interrompido de forma precoce depois de identificar mais risco de câncer de mama e eventos cardiovasculares em um grupo específico de mulheres em TRH. A notícia rodou o mundo de forma simplificada, e o uso da terapia despencou quase da noite para o dia.

O que ficou de fora da manchete: os riscos variavam muito conforme a idade da mulher, o tempo desde a menopausa, o tipo de hormônio e a via de administração. Duas décadas de pesquisa depois, o conhecimento médico mudou bastante. O medo da manchete original, não.

O que a reposição hormonal realmente faz

A TRH repõe, de forma controlada, o estrogênio que o ovário deixa de produzir — e progesterona, quando a mulher ainda tem útero, para proteger o endométrio. O objetivo não é reverter a idade nem prolongar a fase reprodutiva.

O objetivo é aliviar sintomas que corroem a qualidade de vida: fogachos, insônia, ressecamento vaginal, alterações de humor. E, quando iniciada no momento certo, oferecer proteção óssea e cardiovascular.

Risco real, sem minimizar nem exagerar

O aumento de risco de câncer de mama associado à TRH combinada existe, mas costuma ter magnitude parecida a outros fatores de risco modificáveis, como obesidade e consumo regular de álcool. Isso não apaga o risco. Ajuda a colocá-lo em perspectiva.

O momento do início também importa. TRH iniciada dentro dos primeiros dez anos após a menopausa, ou antes dos 60 anos, costuma ter um perfil cardiovascular mais favorável do que quando começa muito depois.

TRH não é milagre. Também não é vilã.

É uma ferramenta médica real, com riscos e benefícios reais — e merece ser avaliada com essa precisão, não com o medo herdado de uma manchete de mais de vinte anos.

Você vem evitando essa conversa com seu médico por medo desatualizado? Siga o Dr. Ricardo Ferraz no Instagram @dr_ricardoferraz.

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